Todas e todos contra o assédio embarcado

Por Carla Elliff

 

Em 2019, passei a integrar a equipe da plataforma de divulgação científica brasileira Bate-Papo com Netuno, que busca destacar as ciências do mar, como é a vida de um cientista nessa área e diversas questões sobre gênero, principalmente no meio acadêmico. Eu havia terminado meu doutorado e estava em uma fase meio incerta sobre quais seriam meus próximos passos profissionais. Entrei em contato com a equipe do Bate-Papo com Netuno na esperança de que lá eu pudesse firmar um pé nessa área de divulgação das ciências do mar, independente da turbulência que pudesse vir nessa nova etapa. Foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado!

O Bate-Papo com Netuno é uma plataforma brasileira de divulgação das ciências do mar (Ilustração por Silvia Gonsales).

Encontrei nessa plataforma uma rede de mulheres incríveis, dedicadas à missão em comum de tornar o oceano mais acessível e promover espaços para debates importantes para nossa profissão.

Um desses debates é sobre o assédio que acontece no meio acadêmico. Apesar de não exclusivo às mulheres, situações de humilhação, perseguição, chacota, constrangimento, entre outros, atingem esse grupo mais frequentemente (tanto no meio acadêmico, quanto no mundo de forma geral). A partir de relatos que recebemos e textos que publicamos, começamos a desenhar um projeto para entender melhor como é o cenário de assédio, especificamente no ambiente embarcado.

Como cientistas do mar, durante diversas fases das nossas carreiras (incluindo quando estamos na graduação), temos a oportunidade/necessidade de realizar o trabalho de campo a bordo de embarcações. Estas podem variar desde um grande navio de pesquisa a um pequeno barco de pesca, onde podemos fazer coletas ou observações de bordo, por exemplo. Porém, o que todos esses ambientes têm em comum é que o mar ainda é visto como um lugar predominantemente masculino. 

A presença feminina no mar ainda pode soar estranha para muitas pessoas, mas a realidade é que sempre ocupamos esse espaço e, cada vez mais, seguiremos lá. Mas como podemos exercer nosso trabalho da melhor maneira possível se este ambiente é hostil para nós?

Durante minha graduação em oceanografia, participei de alguns embarques para coleta de material biológico.

Foi pensando nessa e outras questões que realizamos um mapeamento das situações de assédio em embarques no Brasil. A pesquisa foi encabeçada por Michele Maia para seu mestrado, sob a orientação da Profa. Dra. Catarina Marcolin e da Profa. Dra. Gabriela Lamego, dentro do Programa de Pós-Graduação em Ciências e Tecnologias Ambientais (Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) e Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia da Bahia (IFBA)). 

Preparamos um questionário para identificar a prevalência de casos de assédio no ambiente embarcado, o perfil dos assediadores, o impacto do assédio sobre a pessoa que o sofreu e o que foi feito após o assédio. Os números encontrados foram muito impressionantes!

Por exemplo, mais de 80% das mulheres que responderam ao questionário relataram terem sofrido alguma forma de assédio ao trabalharem embarcadas (para homens, essa prevalência foi em torno de 16%). Piadas machistas e comentários de natureza sexual foram muito frequentemente relatadas, mas também houve situações de violência física e sexual. A maioria dos assediadores foram identificados como homens e, principalmente, de cargos hierárquicos superiores em relação às vítimas.

Como consequência dessa situação, os respondentes indicaram se sentirem inseguros, deprimidos, isolados e desmotivados. Em alguns casos, as pessoas decidiram não trabalhar mais embarcadas, mudando o rumo de suas carreiras.

Com uma melhor compreensão desse cenário, Michele buscou em seu mestrado trazer contribuições que pudessem combater a situação. Foi produzida uma ficha de avaliação pós-embarque, que pode ser aplicada à equipe (de forma anônima, se preferir) para que os responsáveis pela expedição possam saber se há falhas a serem abordadas. Além disso, considerando o cenário acadêmico de embarques, estamos produzindo uma cartilha para informar essa comunidade sobre o que caracteriza um assédio e como agir para criar um ambiente respeitoso e seguro para todas e todos.

E, olhando para o futuro, elencamos alguns pontos importantes:

- São necessárias análises mais profundas e de natureza qualitativa sobre esse assunto;

- Estudos de longa duração que acompanhem mulheres que tenham sofrido situações de assédio também são importantes para entender quantas desistem de suas carreiras em função desse cenário;

- Por fim, é preciso que gestores(as) das embarcações e profissionais que ocupam os cargos mais elevados nestes ambientes promovam uma atmosfera de respeito e de zero tolerância ao assédio.

Tenho muito orgulho de ter podido colaborar com esse projeto e entendo que este é um importante primeiro passo. Seguimos nessa caminhada e te pergunto: o que você vai fazer a respeito disso? 

Para maiores informações, sugiro os seguintes links:

Dissertação de mestrado de Michele Maia

Apresentação dos resultados do mestrado de Michele Maia

Canal do YouTube do Bate-Papo com Netuno

Site sobre o projeto “Todos e todas contra o assédio” no Bate-Papo com Netuno


Todas y todos contra el acoso en el embarque

En 2019 integré el equipo de la plataforma brasileña de divulgación científica Bate-Papo com Neptuno, que busca destacar las ciencias marinas, cómo es la vida de un científico en esta área y diversas cuestiones de género, especialmente en el ámbito académico. Había terminado mi doctorado y estaba en una etapa algo incierta sobre cuáles serían mis próximos pasos profesionales. Me comuniqué con el equipo de Bate-Papo com Neptune con la esperanza de que allí pudiera establecer un punto de apoyo en esta área de divulgación de las ciencias marinas, independientemente de las turbulencias que pudieran venir en esta nueva etapa. ¡Fue la mejor decisión que pude haber tomado!

Encontré en esta plataforma una red de mujeres increíbles, dedicadas a la misión común de hacer el océano más accesible y promover espacios para debates importantes para nuestra profesión.

Uno de estos debates es sobre el acoso que ocurre en el ámbito académico. Si bien no es exclusivo de las mujeres, situaciones de humillación, persecución, burla, vergüenza, entre otras, afectan con mayor frecuencia a este grupo (tanto en la academia como en el mundo en general). Con base en los informes que recibimos y los textos que publicamos, comenzamos a diseñar un proyecto para comprender mejor cómo es el escenario de acoso, específicamente en el entorno integrado.

Como científicos marinos, durante varias fases de nuestras carreras (incluso cuando estamos en la graduación), tenemos la oportunidad/necesidad de realizar trabajo de campo a bordo de los buques. Estos pueden ir desde un gran barco de investigación hasta un pequeño barco de pesca, donde podemos hacer colectas u observaciones a bordo, por ejemplo. Sin embargo, lo que tienen en común todos estos entornos es que el mar sigue siendo visto como un lugar predominantemente masculino.

La presencia femenina en el mar todavía puede sonar extraña para muchas personas, pero la realidad es que siempre hemos ocupado este espacio y, cada vez más, seguiremos estando allí. Pero, ¿cómo podemos realizar nuestro trabajo de la mejor manera posible si este entorno nos es hostil?

 Fue con esta y otras preguntas en mente que mapeamos situaciones de hostigamiento en envíos en Brasil. La investigación estuvo a cargo de Michele Maia para su maestría, bajo la dirección del Prof. Dr. Catarina Marcolín y Prof. Dr. Gabriela Lamego, dentro del Programa de Posgrado en Ciencias y Tecnologías Ambientales (Universidad Federal del Sur de Bahía (UFSB) e Instituto Federal de Educación, Ciencia y Tecnología de Bahía (IFBA)).

Elaboramos un cuestionario para identificar la prevalencia de casos de acoso en el entorno a bordo, el perfil de los acosadores, el impacto del acoso en la persona que lo sufre y lo que se hace después del acoso. ¡Los números encontrados fueron muy impresionantes!

Por ejemplo, más del 80 % de las mujeres que respondieron el cuestionario informaron haber sufrido algún tipo de acoso en el trabajo a bordo (para los hombres, esta prevalencia rondaba el 16 %). Muy a menudo se denunciaron bromas machistas y comentarios de carácter sexual, pero también hubo situaciones de violencia física y sexual. La mayoría de los acosadores fueron identificados como hombres y, principalmente, de posiciones jerárquicas más altas en relación con las víctimas.

Como consecuencia de esta situación, los encuestados indicaron sentirse inseguros, deprimidos, aislados y desmotivados. En algunos casos, las personas decidieron no trabajar más a bordo, cambiando la dirección de sus carreras.

Con una mejor comprensión de este escenario, Michele buscó en su maestría traer contribuciones que pudieran combatir la situación. Se elaboró ​​un formulario de evaluación post-embarque, que se puede aplicar al equipo (de forma anónima, si lo prefiere) para que los responsables de la expedición puedan saber si hay fallas que corregir. Además, considerando el escenario académico de los envíos, estamos produciendo un folleto para informar a esta comunidad sobre lo que constituye acoso y cómo actuar para crear un ambiente respetuoso y seguro para todos.

Y, de cara al futuro, enumeramos algunos puntos importantes:

- Se necesitan análisis más profundos de carácter cualitativo sobre este tema;

- Los estudios de larga duración que acompañan a las mujeres que han sufrido situaciones de acoso también son importantes para entender cuántas abandonan su carrera por este escenario;

- Por último, es necesario que los jefes de embarcaciones y los profesionales que ocupan los más altos cargos en estos entornos promuevan un ambiente de respeto y tolerancia cero ante el acoso.

 

Estoy muy orgullosa de haber podido colaborar con este proyecto y entiendo que este es un primer paso importante. Seguimos en este camino y les pregunto: ¿qué van a hacer al respecto?

 

Para más información, sugiero los siguientes enlaces:

Dissertação de mestrado de Michele Maia

Apresentação dos resultados do mestrado de Michele Maia

Canal do YouTube do Bate-Papo com Netuno

Site sobre o projeto “Todos e todas contra o assédio” no Bate-Papo com Netuno

 


In 2019, I joined the team of the Brazilian scientific outreach platform Bate-Papo com Neptuno, which seeks to highlight marine sciences, what life is like for a scientist in this area, and various gender issues, especially in the academic field. I had finished my doctorate and was at a somewhat uncertain stage about what my next professional steps would be. I contacted the Bate-Papo com Neptuno team in the hope that I could establish a foothold there in this area of ​​dissemination of marine sciences, regardless of the turbulence that could come in this new stage. It was the best decision I could have made!

I found on this platform a network of incredible women, dedicated to the common mission of making the ocean more accessible and promoting spaces for discussions that are important to our profession.

One of these debates is about harassment that occurs in academia. Although it is not exclusive to women, situations of humiliation, persecution, ridicule, shame, among others, affect this group more frequently (both in the academy and in the world in general). Based on the reports we received and the texts we published, we began to design a project to better understand what the bullying scenario is like, specifically in the integrated environment.

As marine scientists, during various phases of our careers (including when we are graduating), we have the opportunity/need to do field work on board ships. These can range from a large research boat to a small fishing boat, where we can make collections or observations on board, for example. However, what all these environments have in common is that the sea is still seen as a predominantly male place.

The female presence in the sea may still sound strange to many people, but the reality is that we have always occupied this space and, increasingly, we will continue to be there. But how can we perform our work in the best possible way if this environment is hostile to us?

It was with this and other questions in mind that we mapped situations of harassment in shipments in Brazil. The research was carried out by Michele Maia for her master's degree, under the direction of Prof. Dr. Catarina Marcolín and Prof. Dr. Gabriela Lamego, within the Postgraduate Program in Environmental Sciences and Technologies (Federal University of South Bahia (UFSB) and Federal Institute of Education, Science and Technology of Bahia (IFBA)).

We developed a questionnaire to identify the prevalence of cases of harassment in the onboard environment, the profile of the harassers, the impact of the harassment on the person who suffers it and what is done after the harassment. The numbers found were very impressive!

For example, more than 80% of the women who answered the questionnaire reported having experienced some form of harassment at work on board (for men, this prevalence was around 16%). Sexist jokes and comments of a sexual nature were reported very often, but there were also situations of physical and sexual violence. Most of the harassers were identified as men and, mainly, from higher hierarchical positions in relation to the victims.

As a consequence of this situation, the respondents indicated feeling insecure, depressed, isolated and unmotivated. In some cases, people decided not to work on board anymore, changing the direction of their careers.

With a better understanding of this scenario, Michele looked to her expertise to bring contributions that could combat the situation. She developed a post-shipment evaluation form, which can be applied to the team (anonymously, if you prefer) so that those responsible for the expedition can know if there are any flaws that need to be corrected. Also, considering the academic scenario of submissions, we are producing a brochure to inform this community about what constitutes bullying and how to act to create a respectful and safe environment for all.

And, looking to the future, we list some important points:

- More in-depth qualitative analyzes are needed on this topic;

- The long-term studies that accompany women who have suffered situations of harassment are also important to understand how many abandon their careers due to this scenario;

- Lastly, it is necessary that the heads of vessels and the professionals who hold the highest positions in these environments promote an environment of respect and zero tolerance for harassment.

 

I am very proud to have been able to collaborate with this project and I understand that this is an important first step. We continue on this path and I ask you: what are you going to do about it?

 

For more information, I suggest the following links:

Dissertação de mestrado de Michele Maia

Apresentação dos resultados do mestrado de Michele Maia

Canal do YouTube do Bate-Papo com Netuno

Site sobre o projeto “Todos e todas contra o assédio” no Bate-Papo com Netuno